Pesquisas em desenvolvimento

Ana Raquel Motta de Souza

Linguagem e trabalho: o papel da música

Encarando a música e o trabalho como práticas discursivas, a pesquisa busca mostrar a importância do papel da música em diferentes tipos de trabalho. Seu principal objetivo é deslocar o enfoque estreito dos cantos de trabalho, comumente caracterizado pela busca de expressões musicais com autenticidade intocada, realizados por trabalhadores tradicionais, e investigar o papel do discurso musical em diferentes atividades de trabalho. No campo da Linguística Aplicada, o estudo da relação entre linguagem e trabalho é um foco importante para compreender essas duas atividades humanas e suas implicações mútuas. Considerando a atividade musical como uma prática discursiva intersemiótica, a pesquisa parte da observação de que em todos os grupos humanos, em muitos tempos e lugares, essa atividade (frequentemente, mas não sempre acompanhada de palavra cantada) ocorre durante as atividades de trabalho de algum modo. O uso da música no trabalho faz parte das práticas discursivas das atividades laborais. Assim, é possível perguntar: o que a música no trabalho diz sobre a relação entre linguagem e trabalho? E ainda, por que e como as pessoas usam essa forma específica de discurso enquanto trabalham? Para responder a essas questões, a pesquisa mobiliza três bases teórico-metodológicas em uma triangulação interdisciplinar: a análise do discurso, a etnomusicologia e a ergologia.

Anselmo Pereira de Lima

Relações existentes entre linguagem e atividade humana em contextos educacionais e de trabalho

Tendo como base teórica certa articulação dos escritos de Mikhail Bakhtin e seu Círculo com os de Vigotski e seus Colaboradores, o objetivo deste projeto de pesquisa é estudar a linguagem e a atividade humana de modo conjunto, uma vez que esses dois fenômenos se constituem mutuamente, se interpenetrando e se interdefinindo. Para a realização de trabalhos que contribuam para o alcance desse objetivo, lançando-se mão de procedimentos metodológicos diversificados, oriundos da Linguística Aplicada e da Psicologia do Trabalho, busca-se focalizar práticas de linguagem em atividades que se desenvolvem em contextos educacionais e de trabalho, considerando-se que a educação pode ser abordada como trabalho e que o trabalho, por sua vez, pode ser abordado como educação.

Décio Rocha

Análise do discurso e dispositivos de produção de subjetividade: paratopia dos discursos científicos 

Tomando por base uma concepção de linguagem que, para além do poder de representação das práticas linguageiras, busca explicitar seus dispositivos de intervenção na produção de real, o presente projeto de pesquisa visa responder, em linhas gerais, a um tríplice desafio: (i) investigar a natureza paratópica dos discursos científicos em seus diferentes registros, levando em consideração que se trata de uma categoria de discurso constituinte que, à diferença dos discursos filosóficos e literários, permanece até o momento largamente inexplorada sob a ótica da paratopia; (ii) articular os resultados da dimensão paratópica desses discursos à noção de subjetividade, explicitando os dispositivos de sua produção; (iii) dar prosseguimento às pesquisas que articulam linguagem e trabalho, com ênfase em uma modalidade de trabalho que vem sendo explorada por este pesquisador em seus últimos projetos: o trabalho docente.

Fátima Cristina da Costa Pessoa

Práticas discursivas e vocações enunciativas: a centralidade da linguagem em contextos de trabalho

O projeto se apresenta como parte de um percurso de pesquisa que tem privilegiado a abordagem discursiva dos fenômenos de linguagem, focalizando principalmente a conjunção entre a dimensão discursiva e a dimensão acional das práticas humanas. Entendendo-se que todo o exercício enunciativo insere-se em um quadro acional que o determina e que por ele é determinado, busca-se compreender a complexidade da articulação entre a ordem dos discursos e a ordem das ações conjuntas articuladas em toda situação de interação. No âmbito do projeto, trata-se de privilegiar a conjunção da dimensão discursiva e da dimensão acional nas práticas discursivas que se realizam em ambiente de trabalho. Investigando-se essas relações nos últimos quatro anos, os resultados que se tem alcançado, mais que respostas definitivas sobre o funcionamento discursivo relativo às atividades laborais, apontam para a necessidade do aprofundamento das investigações tanto para a consolidação das bases teóricas que sustentam a condução da pesquisa, quanto para a compreensão dos processos enunciativos e discursivos relacionados aos campos da atividade humana que se tem privilegiado nas análises, a saber o campo do trabalho docente em contexto institucional e o campo do trabalho jurídico.

Marcella Machado de Campos

O discurso de um lugar (im)possível: considerações sobre o potencial paratópico de travestis e transexuais

Atualmente, o Brasil não só é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, como também é o maior consumidor global de pornografia protagonizada por pessoas trans, segundo dados de organizações não governamentais e sites especializados. Levando-se em conta tal contexto sócio-histórico, o objetivo do presente estudo é discutir, no bojo da Análise do Discurso francesa, a inserção problemática de travestis e transexuais no universo discursivo. Para tanto, ao investigar-se a noção corrente de “lugar de fala” desde sua gênese e estabelecer um paralelo com o primado do sistema de lugares e as posições discursivas de coenunciação e sobre-enunciação (Maingueneau), considera-se que a força da autorrepresentação identitária e sua influência sobre a produção de saberes configuram uma virada discursivo- epistemológica que, em certa medida, desestabiliza a construção do conhecimento acadêmico. Além de estatísticas que atestam os altos índices de violência transfóbica em território nacional e de iniciativas que visam a combatê-la, apresentam-se algumas possibilidades de definição dos termos “travesti”, “transexual” e “transgênero” que circulam em diferentes espaços discursivos, destacando a complexidade das questões sobre identidade de gênero. Em seguida, à luz da noção de fórmula discursiva (Krieg-Planque), analisa-se uma série de ocorrências do sintagma “LGBT” em várias reportagens e depreendem-se as relações de poder e de opinião que emergem nas práticas linguageiras em virtude da dificuldade de se referir às pessoas que seriam representadas pela letra “T” do acrônimo símbolo da diversidade. Reúnem-se, ainda, dispositivos normativos dos campos jurídico, médico, artístico e educacional que regulam o direito à existência, ao corpo e ao nome das pessoas trans. A compilação corrobora tanto o pertencimento paradoxal de travestis e transexuais à sociedade, cujo pleno direito à cidadania é reiterado ou rechaçado em função dos interesses políticos dos grupos que se alternam no poder, quanto atesta o efeito de constituência das decisões tomadas na esfera judiciária, haja vista o valor de verdade que o discurso jurídico confere a si próprio para se legitimar, embora também possa fazê-lo ao recorrer a outros discursos constituintes, especialmente o religioso e o científico. Então, traça-se o estado da arte do conceito de paratopia ao longo de vinte anos da obra de Maingueneau e propõe-se uma continuidade ao estudo, o que permitiria articulá-lo a manifestações artísticas de diversos gêneros de discurso que não correspondem somente a obras literárias de autores consagrados. Finalmente, seleciona-se a autobiografia Vidas Trans – a coragem de existir (MOIRA et al., 2017) e lança-se mão das noções de embreagem paratópica e das sete instâncias de paratopia de identidade, a saber, paratopia familiar, sexual/de gênero, social, máxima, física, moral e psíquica, como categorias para analisar alguns excertos. Por fim, à semelhança dos cânones da literatura, conclui-se que as personagens autobiográficas mobilizam seu potencial paratópico criador para gerir o paradoxo do seu (não) pertencimento à sociedade, construindo, no e através de discursos do cotidiano, um lugar antes impossível.

Maria Cecília Pérez de Souza e Silva

Trama e urdidura: articulações entre atividade de linguagem e  atividade de trabalho

A relação atividade de linguagem/atividade de trabalho pode ser entendida, deslocando a metáfora de Daniellou (1996), como o “nó” que une duas instâncias: a trama e a urdidura. A trama é constituída pelos fios que ligam homens e mulheres a diferentes normas discursivas e laborais; a urdidura é depreendida pela ressingularização, desnaturalização de tais normas. Nesse contexto, tem-se por objetivo estudar a atividade de trabalho de diferentes atores sociais, as normas e os movimentos de renormalização, relacionando-os aos discursos das comunidades profissionais em que esses atores estão inseridos. Do ponto de vista discursivo, recorre-se a noções clássicas propostas por Dominique Maingueneau (2008) e em desdobramentos recentes, configurados na relação ritos genéticos e autoria e na distinção enunciação textualizante e aforizante.(2014). As contribuições referentes à noção de trabalho/atividade de trabalho advêm da abordagem ergológica que se baseia em dois princípios: a formalização de um modo de produção de conhecimento sobre as atividades humanas, notadamente do trabalho e o reconhecimento de que este modo de produção de conhecimento é transformador de situações concretas Assiste-se, então, à confrontação entre os saberes elaborados pelas disciplinas acadêmicas, os “saberes instituídos”, e as experiências, valores, “saberes investidos” pelos protagonistas em seu cotidiano de trabalho (Schwartz, 2011).

Maria da Glória Corrêa di Fanti

Perspectiva dialógica e abordagem ergológica: questões de linguagem e trabalho

Investigações que focalizam o tema linguagem e trabalho têm apontado para a importância da análise de práticas de linguagem para o (re)conhecimento de atividades distintas de trabalho (Di Fanti, 2009, 2012; Nouroudine, 2002; Souza-e-Silva, 2005). Mas de que concepção de linguagem e de trabalho se está tratando quando se parte desse pressuposto? Instigada a contribuir com pesquisas de cunho interdisciplinar que se voltam para o tema em foco, esta pesquisa tem o objetivo de investigar a produtividade da aproximação entre os estudos bakhtinianos (Bakhtin, 2003, 2010, 2015; Voloshinov, 2010) e os ergológicos (Schwartz, 1994, 2000, 2010; Durrive, 2015), com vistas a desenvolver subsídios teóricos e metodológicos que contemplam a interface linguagem e trabalho. Espera-se com o estudo proposto fazer avançar noções e conceitos convocados das duas áreas, como sujeito e corpo-si, acento axiológico e debate de valores, ato ético e atividade, de modo a iluminar atividades humanas em diversas nuanças, passando pelo visível e o invisível, o socializado e o singular.

A constitutiva e tensa relação com o discurso do outro: questões de pesquisa e de formação na contemporaneidade

Partindo do pressuposto de que a linguagem é constitutivamente dialógica, esta pesquisa focaliza o estudo da tensão, em especial o detalhamento do tenso diálogo de vozes (conflito, ruptura, oposição, aliança, silenciamento etc.) no discurso midiático. A tensão entre discursos, embora esteja na base do pensamento bakhtiniano, é pouco estudada e discutida nas pesquisas que se baseiam na teoria dialógica. Que problemas de compreensão do funcionamento do discurso poderiam ser resolvidos com o aprofundamento dessa perspectiva? Qual a importância desse estudo para a formação do pesquisador e professor? Partindo dessas reflexões, espera-se, por um lado, aprofundar questões teóricas e metodológicas das pesquisas dos integrantes do Grupo Tessitura: Vozes em (Dis)curso e, por outro, desenvolver subsídios consistentes voltados para a formação na contemporaneidade. Integra esta pesquisa maior o projeto “A tensa relação com o discurso do outro e a produção de sentidos: contribuições bakhtinianas para a pesquisa e a formação na contemporaneidade” (Edital Pesquisador Gaúcho, FAPERGS, 2014-2016).

Maria del Carmen Fátima González Daher

Práticas de linguagem, formação e trabalho do professor de línguas no ensino básico

A pesquisa se volta para o estudo de práticas sociais por meio das quais se configuram discursivamente um sujeito professor e seu trabalho.  Tem como aportes teóricos uma perspectiva discursiva de base enunciativa (MAINGUENEAU, 1984, 1987, 2000) e contribuições advindas da Ergologia (SCHWARTZ, 1998, 2000) pautadas numa concepção ampliada de situação de trabalho (ROCHA, DAHER, SANT´ANNA, 2002). São objetivos gerais do estudo: (a) contribuir com reflexões sobre o campo profissional do linguista e seu papel como cientista social; (b) colaborar com iniciativas que aproximem instituições formadoras de docentes e professores do ensino básico; (c) dar prosseguimento a estudos desenvolvidos junto ao GT Anpoll Enunciação, linguagem e trabalho e aos grupos de pesquisa PRÁTICAS de Linguagem, trabalho e formação docente (UFF), Práticas de Linguagem e Subjetividade  – PraLinS (UERJ) e Atelier-Linguagem e trabalho (LAEL-PUC/SP). São objetivos específicos da análise: (a) contribuir com investigações voltadas para práticas de linguagem que tornam enunciáveis “verdades” compartilhadas atribuíveis ao trabalho docente; (b) identificar dispositivos que configuram discursivamente modos de constituição desse profissional; (c) identificar relações entre enunciação, práticas de linguagem institucionalizadas e contexto histórico em que se inscrevem essas práticas; e (d) discutir a adequação dessas práticas discursivas às necessidades da profissão.

Marília Giselda Rodrigues

Práticas discursivas e processos de constituição de identidades na mídia, nas artes, na educação e nas diversas esferas de atividades de trabalho

Com base no referencial teórico e nos diversos autores da Análise do Discurso de linha francesa, inclusive de seus desdobramentos mais recentes, a partir das contribuições de linguistas como Dominique Maingueneau e Alice Krieg-Planque, este projeto visa produzir trabalhos relacionados à discussão teórica e à análise de diversos aspectos do funcionamento discursivo (interdiscurso, cena enunciativa, ethos, autoria, ritos genéticos, gêneros do discurso, fórmulas discursivas e circulação de sentidos) e também relacionados à temática da constituição e legitimação de identidades na mídia, nas artes, na educação e nas diversas esferas de atividades de trabalho, considerando que a questão das identidades está estreitamente ligada aos posicionamentos enunciativo-discursivos inscritos no campo midiático, artístico/literário, educacional etc. Para o exercício da reflexão sobre as questões do trabalho, entendido como atividade humana, sempre entrelaçado às atividades linguageiras, e para a análise de discursos relacionados às diversas esferas de atividades de trabalho, buscaremos apoio na Ergonomia da Atividade, de origem franco-belga, e na Ergologia, tal como preconizada pelo filósofo Yves Schwartz, como forma de abordagem auxiliar nesses estudos.

Silma Ramos Coimbra Mendes

Discursos e transaberes na articulação empresa – escola

Este projeto de pesquisa busca ampliar os estudos desenvolvidos na linha de pesquisa Linguagem e Trabalho que versam sobre a articulação empresa-escola, tendo como aporte teórico-metodológico a análise do discurso francesa, conforme desenvolvida por Dominique Maingueneau e a abordagem ergológica a partir dos trabalhos de Yves Schwartz. A hipótese de pesquisa é de que a profunda hierarquização e supremacia dos processos empresariais sobre aqueles da esfera educacional se traduz em uma relação marcadamente desigual, na qual irrompem ora discursos de “parceria” legitimados pelas comunidades discursivas envolvidas, ora debates de normas e valores em transaberes relativos ao “aqui-agora” da experiência. A pesquisa direciona seu olhar discursivo-ergológico especificamente sobre um projeto socioambiental (EducAção) da International Paper, multinacional líder do setor de papel e celulose, localizada no interior de São Paulo. Os procedimentos metodológicos envolvem o levantamento de textos prescritivos que regem as ações de sustentabilidade promovidas pela empresa, a análise discursivo-ergológica de oficinas ministradas a professores e alunos das escolas da região, com a finalidade de subsidiá-los como técnicas de escrita para participação em concurso literário, assim como a análise de dados colhidos em entrevistas semiestruturadas com representantes institucionais das duas áreas, das quais se depreendem aspectos residuais de conteúdos renormalizados.

Vera Lucia de Albuquerque Sant’Anna

Discursividades em contraste: reformas curriculares e formação para o trabalho de professor de línguas – Mudanças propostas por regras editadas em 2015-2019

Esta pesquisa dá continuidade a estudos centrados num conjunto de documentos que registra reformas da licenciatura, em especial aqueles produzidos no âmbito da legislação federal sobre a matéria e no dos textos editados pelos órgãos reguladores da UERJ, no que se refere ao curso de Letras. Tem como propósito estudar esse material como prática discursiva que cria prescrição para a formação e para o trabalho de professor, ou seja, como normas antecedentes, tal como definidas pelos estudos ergológicos (SCHWARTZ, 1998, 2000). A pesquisa toma como referencial teórico estudos em Análise do Discurso (MAINGUENEAU, [1985] 2005), contribuições de Bakhtin e seu círculo ([1979] 1992, 2010), estudos sobre currículo (SILVA, T., 2007). Seus objetivos são analisar legislação federal que altera a formação do professor, editada entre os anos de 2015-2016 e seguintes; identificar linhas de discursividades que fundamentam a formação profissional de professor, tendo como desdobramento previsto o acompanhamento da reforma em curso na UERJ para a formação de professor de espanhol como língua estrangeira; discutir o papel da relação entre concepção teórica de língua, de ensino de língua e as ementas de disciplinas oferecidas à graduação em Letras; apontar questões a serem discutidas pela comunidade envolvida nessa formação.